Tempos de pandemia - Diário de bordo semana 04 a 08 de maio de 2020

 

Começamos a segunda semana de trabalho a distância tentando nos encontrar em meio esse turbilhão de informações que vão e vem a todo momento. Os ânimos as vezes se alteram pois tudo isso é novo e desafiador para todos e a gente vai aprendendo com cada obstáculo e cada etapa vencida. Percebemos o quanto é importante a união entre a equipe e a organização individual de cada um.

Percebemos que para algumas pessoas esse processo causa maior desconforto e com isso gerou-se um movimento entre os professores numa organização própria dessa equipe, para compreensão e organização coletivas dos afazeres.

Terça feira, dia 05, concluí e enviei a tarefa do AVAMEC recursos digitais. Para essa atividade realizei uma troca importante com minha parceira de sala, a professora Claudete. Elaboramos atividades à luz da experiência com nossos bebês, levando em conta a realidade pautada nos objetivos específicos dessa faixa etária.

Quarta feira, dia 06, logo pela manhã fui até a escola e a sensação inicial foi de uma inevitável tristeza. Dentro dos muros o tempo parece ter se congelado, o balanço ainda tem o movimento das crianças que ali brincavam. No pátio o som das motocas e os gritos ofegantes dos nossos pequenos. Pude ver ao longo do corredor várias atividades acontecendo e as professoras orientando a rotina através do som das músicas. Lá na frente uma criança caminhava de costas orientando os colegas, copiando a ação da educadora.

No meio de tudo isso uma pessoa da equipe de apoio corre com um balde e um pano nas mãos para limpar um escape de xixi de uma criança na sala de aula. Enquanto isso a professora corre até a geladeira para pegar gelos para socorrer uma criança que encostou com força a cabeça na mesa e fez um pequeno hematoma.

Pela rampa vem descendo a turminha dos maiores, ansiosos e saltitantes. A felicidade por saber que chegou a sua vez de brincar no tão sonhado parque. No refeitório alguém virou o prato sobre a mesa pois se desentendeu com o colega e não pode conter a emoção. Enquanto isso uma criança escapa em direção ao corredor em busca de novas aventuras.     

Quando toda essa energia me contagiava pude perceber que o tempo havia parado há mais de 40 dias, guardando essas lembranças vivas ali, mantendo a presença de cada pessoa que compõe a família Alzira, esperando com calma e desejando que a tempestade passe e os pássaros possam voltar a voar. Até lá, por aqui, vamos aprendendo a evoluir com o caos, impedindo que ele nos domine.

Apenas uma certeza, a de que o causador de todo esse distanciamento é invisível e tem um nome, COVID 19, ele é um vírus. Por mais que esperamos ações humanas de combate a esse vírus, ações governamentais, e ainda que tenhamos opiniões A ou B sobre o que se faz ou deixa de fazer. E aqui cabe ressaltar, que devemos sim cobrar tais atitudes e exigir que a vida deva ser posta em prioridade. Contudo, não podemos esquecer que o inimigo em comum é um vírus! E a cada um de nós cabe o dever de lutar contra ele na certeza de que lá na frente poderemos voltar a fazer aquilo de que gostamos e sentimos falta. Muito embora, “o normal” nunca mais será o mesmo.

Quinta feira, dia 07, foi dia de refazer a tarefa do AVAMEC, pois teve problema no sistema operacional e fomos orientados a realizar o questionário novamente. Foi também dia de gravar o vídeo para comunicação com as crianças através da página da escola no Facebook. Essa tarefa, por mais simples que pareça, foi desafiadora pois tivemos que lidar com o constrangimento da exposição e explorar habilidades de edição, que até então, a maioria não sabia lidar. Mas deu certo e nosso vídeo ficou pronto. No final ainda foi divertido.

Durante a semana realizamos estudos dos materiais que compõem as leituras embasadoras para a elaboração do PPP de 2020. Fizemos um plano que visava em primeiro momento o estudo do material depois disso a leitura e atualização dos objetivos de cada segmento. Nosso material está organizado por área de conhecimento e fomos orientados a mantê-lo dessa forma e atentar-se aos direitos e objetivos trazidos pela BNCC e, caso necessário, fazer as devidas modificações. Percebi que precisava acrescentar o olhar para o desenvolvimento através das sensações, que procuramos sempre trabalhar com as crianças em fase de berçário, além de atualizar as informações para a turma de 2020.

    Finalizando a semana, encerrando as tarefas para serem entregues e já se preparando para as próximas que terão seu início na segunda feira, dia 11. Dentre todas os aprendizados da semana ficou a necessidade de organização e extrema atenção a tudo, não deixar de ler nenhuma rede e anotar tudo que precisa ser feito, mas em especial ressaltar a importância da parceria. Em vários momentos tivemos que nos dar as mãos para caminhar, tivemos que pedir para que alguém apontasse qual o caminho certo.

Por fim, quero trazer um pouco da reflexão sobre a quase inevitável quebra da economia em decorrência dos efeitos do COVID 19 no mundo. Para isso trago a contribuição de István Mészáros em seu livro A educação para além do capital, julho de 2005, página 76:

A nossa Época de crise estrutural global do capital é também uma época histórica de transição de uma ordem social existente para outra, qualitativamente diferente. Essas são as duas características fundamentais que definem o espaço histórico e social dentro do qual os grandes desafios para romper a lógica do capital, e ao mesmo tempo também para elaborar planos estratégicos para uma educação que vá além do capital, devem se juntar.

O pensamento trazido há 15 anos traduz o que estamos vivendo. Tempos sombrios em que empregados em clara alienação de classe defendem a soberania do capital em detrimento da vida. Este é, ou deveria ser, momento de reflexão sobre a ação do capital sobre a sociedade, os efeitos da exploração do trabalhador e suas condições indignas de vida. Este é o momento para reestruturar sistemas, para que quando o fluxo “normal” pudesse voltar, as relações fossem outras. Aqui cabe o importante papel da educação numa função emancipadora, orientando e formando a sociedade sobre as necessidades da transformação social. E como diz Mészáros “Cabe a nós todos – todos, porque sabemos muito bem que “os educadores também têm de ser educados””. Finalizo com a certeza de que ninguém jamais será o mesmo depois do ano de 2020.

  

Referência

A educação para além do Capital / István Mészáros; tradução de Isa Tavares. - São Paulo: Boitempo, 2005

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