Preconceito Reverso?
Semana marcada por um frio absurdo e debates quentes.
Falamos sobre africanidades! Um tema de alta relevância, porém desafiador. Falar
sobre África é, necessariamente, falar sobre racismo e é impossível trilhar esse
caminho sem nenhuma dor. É preciso coragem, força e empatia. Mas acima de tudo
é necessário estudo, pesquisa, escuta e muita paciência.
Faz um tempo que circula uma frase pela
internet que diz que “é necessário termos consciência humana” em detrimento de
comemorar dias de lutas especificas. Há um risco enorme nesse pensamento
generalista.
Quando iniciamos a abordagem do tema na nossa reunião
pedagógica - online - na escola que trabalho, essa fala começou a circular pelo chat e logo esquentou o debate. Não
acredito que haja uma intencionalidade em deslegitimar o tema central quando,
em nosso coletivo, surgem questões como estas, mas isso não anula o fato de que
ao ampliarmos e generalizarmos os temas sobre preconceitos e diversidades
estamos mais uma vez desviando o foco sobre o racismo estrutural e todo o mal
que ele nos causa. Devemos sim falar sobre todas as formas discriminatórias e opressoras,
mas cada qual deve ter seu espaço e sua força.
Quando uma pessoa branca relata uma experiência
discriminatória vivenciada e dá o nome de racismo reverso, ela desconhece o que
há por trás do racismo histórico e estrutural. Nesse momento está evidenciada a
necessidade de aprofundarmos a formação sobre história e ancestralidade, território
e territorialidade na formação do povo brasileiro. Não estou aqui relativizando
a dor que a professora sentiu ao sofrer uma discriminação sobre seu tom de
pele, mas não se trata de uma dor milenar e coletiva, sobre ter suas gerações escravizadas
pela única justificativa da cor da sua pele, ao receber injúrias pessoais não
estende a ofensa para suas filhas, mãe e avós, ela não pode ouvir o som do
chicote ao ser chamada de “branquela”. Não concordo com qualquer tipo de ofensa
que leva em conta a condição física das pessoas, mas não podemos dizer que há
racismo reverso se essa dor não considera a história coletiva milenar de populações
inteiras.
Foi e é um importante passo dado quando iniciamos
esse debate, mas há que se retirar a armadura de ferro e abrir mão das frases
feitas que escondem o comportamento racista ao invés de enfrenta-lo. A construção
do pensamento racista se dá por mínimos detalhes mascarados, muitas vezes, por
elogios sobre a aparência física, a inteligência e vários outros atributos que
nada tem a ver com a imagem pessoal e o tom da pele.
Somos educadores e temos que ser exemplo de
busca ativa de conhecimento e desconstrução de todo preconceito e amarras, não
dá pra continuar insistindo em pensamentos limitadores que perpetuam dor e
sofrimento. Sabemos que nem sempre temos força pra enfrentar o que nos oprime e
menos ainda pra entender que vivemos num estado de opressão, mas é necessário começar
esse movimento de reconhecimento de classe, caminhar no seu lado da história
sem negar suas origens e trair seus pares se utilizando de interesses pessoais
individualistas e alienados.
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