Camponesa
Há um tempo atrás recebi em minha casa uma parente idosa que viveu toda sua vida no interior, área rural. Passeava com ela pelas ruas de São Paulo apresentado tudo enquanto observava atenta e curiosa. Percebi que ela cumprimentava a todos que passavam pelas calçadas, olhando-os nos olhos.
Certa tarde quando voltamos de um passeio ela perguntou-me o por quê das pessoas serem tão tristes. Isso me impactou e me deixou sem resposta enquanto meus pensamentos voavam.
No campo, onde vivia, as pessoas se olham nos olhos e se notam ao cruzarem seus caminhos. As mulheres levam canjas para a vizinha que está doente ou teve um bebê. Lavam as roupas e limpam a casa. Os homens vão para a lavoura contribuir com o vizinho que está debilitado. Fazem mutirão e muita festa para terminar a construção daquela casa nova do amigo. Trocam sementes e produtos da colheita, compartilham a carne para que sempre tenham carne fresca a mesa, revezando no abate dos animais.
Aos finais de semana reúnem-se nos galpões comunitários para jogar cartas e bingos além daquele arrastapé .
Ser feliz e ser "junto" é natural na vida do campo.
De repente pego-me pensando no quão acinzentados estamos entre cimentos e tijolos. Não olhamos nos olhos e nem damos bom dia ao cruzar com alguém pela calçada, se alguém o faz é tido como louco. As ruas sempre lotadas de "um" que não se reconhecem mais na dor do outro e que, muitas vezes, sentem raiva da alegria escancarada do irmão.
Se um vizinho morre só é percebido quando de repente surge uma placa de vende-se ou aluga-se e alguém comenta que já fez missa de um ano.
Gasta-se rios de dinheiro para decidir qual será o tom de cinza ou bege claro que o design vai escolher para a pintura da casa. Mas acha lindo e exótico as culturas "lá de fora" que valoriza o colorido, voltando sempre para suas palhetas degradês.
Nas assembléias de moradores brigam pelas regras enrijecidas que proíbem que as roupas no varal apareçam pro vizinho, "aqui não é cortiço" grita a moradora do apartamento ao fundo. Ao se encontrar no elevador ficam ofegantes sem ter o que falar, mesmo sabendo que aquele vizinho acaba de ser agraciado com um novo filho. Quando muito conseguem falar sobre o clima quente ou frio, brigando com a natureza que a cada dia é destruída por toneladas de lindas embalagens produzidas para amaciar o ego inflado de vaidades.
E num súbito suspiro me pego sentindo inveja daquela simples camponesa que leva a vida a reciclar potes de margarina para levar doce pra filha que mora na cidade, que só pinta a unha quando tem festa de batizado ou casamento mas comemora o nascimento dos filhotes da cachorrinha que há tempos tem sido sua fiel companheira.
E num golpe de dor me pego tendo pena de cada um que passa a vida a esperar pelo final de semana onde vai se trancar no escuro de sua sala e assitir todos os capítulos de sua série preferida, exaustos da correria que não parece ter fim, sem saber em qual lua se encontra e nem onde nasce e se põe o sol.
Será que um dia alguém deixará de notar tristeza em nossos olhos? Será que nas janelas voltarão a nascer flores e o verde deixará de ser proibido nas varandas gourmet? Poderá o amante tocar sua música em seu velho violão sem que alguém se incomode?
Será que o amor sobreviverá a tanto ódio? Que o perdão vencerá o rancor? Que nas praças teremos crianças a correr? E nossos rios e matas, sobreviverão a tanta destruição? E nossos antepassados índios poderão existir e cultuar seus deuses sem serem dizimados? Até onde vão as nossas forças?
Mary
01/08/2019
Certa tarde quando voltamos de um passeio ela perguntou-me o por quê das pessoas serem tão tristes. Isso me impactou e me deixou sem resposta enquanto meus pensamentos voavam.
No campo, onde vivia, as pessoas se olham nos olhos e se notam ao cruzarem seus caminhos. As mulheres levam canjas para a vizinha que está doente ou teve um bebê. Lavam as roupas e limpam a casa. Os homens vão para a lavoura contribuir com o vizinho que está debilitado. Fazem mutirão e muita festa para terminar a construção daquela casa nova do amigo. Trocam sementes e produtos da colheita, compartilham a carne para que sempre tenham carne fresca a mesa, revezando no abate dos animais.
Aos finais de semana reúnem-se nos galpões comunitários para jogar cartas e bingos além daquele arrastapé .
Ser feliz e ser "junto" é natural na vida do campo.
De repente pego-me pensando no quão acinzentados estamos entre cimentos e tijolos. Não olhamos nos olhos e nem damos bom dia ao cruzar com alguém pela calçada, se alguém o faz é tido como louco. As ruas sempre lotadas de "um" que não se reconhecem mais na dor do outro e que, muitas vezes, sentem raiva da alegria escancarada do irmão.
Se um vizinho morre só é percebido quando de repente surge uma placa de vende-se ou aluga-se e alguém comenta que já fez missa de um ano.
Gasta-se rios de dinheiro para decidir qual será o tom de cinza ou bege claro que o design vai escolher para a pintura da casa. Mas acha lindo e exótico as culturas "lá de fora" que valoriza o colorido, voltando sempre para suas palhetas degradês.
Nas assembléias de moradores brigam pelas regras enrijecidas que proíbem que as roupas no varal apareçam pro vizinho, "aqui não é cortiço" grita a moradora do apartamento ao fundo. Ao se encontrar no elevador ficam ofegantes sem ter o que falar, mesmo sabendo que aquele vizinho acaba de ser agraciado com um novo filho. Quando muito conseguem falar sobre o clima quente ou frio, brigando com a natureza que a cada dia é destruída por toneladas de lindas embalagens produzidas para amaciar o ego inflado de vaidades.
E num súbito suspiro me pego sentindo inveja daquela simples camponesa que leva a vida a reciclar potes de margarina para levar doce pra filha que mora na cidade, que só pinta a unha quando tem festa de batizado ou casamento mas comemora o nascimento dos filhotes da cachorrinha que há tempos tem sido sua fiel companheira.
E num golpe de dor me pego tendo pena de cada um que passa a vida a esperar pelo final de semana onde vai se trancar no escuro de sua sala e assitir todos os capítulos de sua série preferida, exaustos da correria que não parece ter fim, sem saber em qual lua se encontra e nem onde nasce e se põe o sol.
Será que um dia alguém deixará de notar tristeza em nossos olhos? Será que nas janelas voltarão a nascer flores e o verde deixará de ser proibido nas varandas gourmet? Poderá o amante tocar sua música em seu velho violão sem que alguém se incomode?
Será que o amor sobreviverá a tanto ódio? Que o perdão vencerá o rancor? Que nas praças teremos crianças a correr? E nossos rios e matas, sobreviverão a tanta destruição? E nossos antepassados índios poderão existir e cultuar seus deuses sem serem dizimados? Até onde vão as nossas forças?
Mary
01/08/2019
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