Mochila de rodinhas
Numa dessas andanças pela minha memória escolar encontrei um fato um tanto inusitado. Lembrei do quanto desejava ter uma mochila de rodinhas. Quando voltava pra casa ficava admirando as crianças que arrastavam suas bolsas com materiais usados durante as aulas.
Acredito que não cheguei a comentar com minha família sobre esse desejo até o fatídico dia.
Fazia bastante calor e eu caminhava por dentro da vila, quando decidi que faria a própria mochila de rodinhas. Minha mãe havia comprado uma bolsa xadrez vermelha de veludo. Estiquei bastante suas alças e comecei a arrasta-la pelo chão. Era uma felicidade tão grande que meu coração parecia não caber dentro do peito. Meus pés flutuavam e o olhar procurava ao redor no desejo de que as outras crianças percebessem que eu também tinha uma mochila de rodinhas.
Seria cômico se não fosse trágico, já diz o bordão. Ao chegar em casa pensando ter descoberto o caminho da real felicidade pude ouvir a voz da minha mãe em minha direção. Ela não conseguia entender o que poderia passar na minha cabeça ao fazer aquilo. O fundo da bolsa estava todo rasgado, o vidro de cola furado e as folhas dos cadernos sujas e grudadas. Uma lambança.
Por mais que eu tente não consigo lembrar se minha mãe ficou tão irada quanto eu hoje, ao longo de minhas tantas primaveras, entenderia que ficasse. Acredito que tenha visto a tamanha inocência em um desejo de criança.
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